sábado, 10 de maio de 2008

Não Somos Juízes. Juízo Povo de Deus!

Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e,
com a medida com que tiverdes medido também vós sereis medidos."
Mateus 7,2

Tenho acompanhado o caso “Nardoni” pela televisão, rádio, jornais, revistas, internet como centenas de milhares de brasileiros. Um festival de horror que parece não ter fim. O que mais intimida meu raciocínio sobre o bem e o mal e minha esperança no ser humano não é o caso em si, que, diga-se de passagem, é uma afronta à civilização; mas o modo com que ele desencadeou em um número significativo de pessoas da sociedade brasileira a crueldade, o rancor, o desejo em fazer justiça com as próprias mãos.
Pessoas de todos os níveis sociais, de diferentes faixas etárias por diversos motivos pessoais e ou coletivos, saíram de suas residências, algumas, há kilometros de distância para participar do grande “circo de horrores” armado diante do prédio do casal indiciado, defronte à casa dos familiares e da delegacia. Para os que moram em regiões mais distantes, como eu, centenas de jornalistas empunhados de dezenas de cabos, luzes e câmeras se atropelam na busca do melhor ângulo; o que na maioria das vezes é conseguir as imagens mais chocantes, humilhantes, degradantes de cada desfecho da epopéia cruenta.
Não seria o bastante o silêncio reflexivo? A tristeza dos fatos? A ação do poder judiciário? A vergonha social por ver deflagrar tal situação num meio que se diz civilizado?
Minha indignação ainda maior é por professar a fé católica. Digo indignação por entender que ser cristão é dizer sim ao projeto, às idéias e as ações do Cristo. Este, em sua vida pública esteve diante de horrores como esse que estamos vivenciando, mas sua atitude não foi de violência, rebelião sem rumo, gritos desesperados. Ele nos ensinou que não devemos julgar de modo torpe, pois da mesma maneira seremos nós julgados. Ensinou ainda a amar o inimigo, o que não significa fazer conluio com este, mas, buscar compreender sua condição e ser para ele referência do bem, modelo perfeito de vida e dignidade. Este, por sua vez, diante do bem consegue perceber o mal cometido e envergonhar-se dele, quiçá arrepender-se e entender serem justas as penas a ele imputadas. Confessa seus crimes por ver encarnada a ação do bem. Não há coração que não se arrependa diante do imenso amor de Deus. Esse despertar de consciência é que transforma o indivíduo e conseqüentemente a sociedade.
Muitos poderiam dizer: mas também Jesus pegou o chicote e expulsou os vendilhões do templo. É verdade. Os vendilhões. Não chicoteou aqueles que compravam os animais. Não se indignou com eles por conhecer sua reta intenção, a oblação e os sacrifícios. Expulsou por sondar o coração daqueles que exploravam os bem-intencionados, aqueles que vazios de significados de fé, reduziram o templo em mercado, aproveitaram-se da circunstância para lucrar.
Quantos cristãos foram espectadores nesse circo? Quantos deles católicos? Por que os ensinamentos de Jesus caíram no esquecimento destes que dizem segui-lo e amá-lo? Quantos lucraram com esses horrores?
Não compactuo com o crime cometido contra Isabela, não o aprovo, em absoluto. Mas diante da turba, me calo. Não empresto minha voz à corrente do mal. Oro a Deus pedindo misericórdia por todos nós, sabedoria aos juízes e promotores, consolo e esperança aos familiares, de modo especial aos filhos do casal. Peço a Deus que desperte em cada coração a generosidade, a prudência, a solidariedade, a compreensão, o discernimento e a paz.
Àquele que crê, basta saber que nada é oculto aos olhos de Deus e que Sua justiça nunca falha ou tarda. E que Deus não se deixa vencer em bondade.
Aristides Luis Madureira
Editora A Partilha

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